quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Uma homenagem a Donna Williams

Bartyra Ribeiro de Castro[1]

O saber extraído das autobiografias de autistas é objeto de teorização de grupos de pesquisa e de autores internacionalmente renomados, como Rosine e Robert Lefort, Eric Laurent, Jean-Claude Maleval, dentre muitos outros. 

Os relatos autobiográficos começam com Donna Williams, uma jovem australiana, autista de alto rendimento, que pôde, através da escrita, encontrar uma forma muito singular de estar no mundo, de falar sobre o autismo e de ajudar a muitos autistas a compreenderem melhor o que se passa dentro de si. Compreender um pouco o funcionamento autístico, em alguns casos, possibilita um apaziguamento frente às estranhezas vividas e aos rechaços tão presentes nas relações sociais. Compreender, saber-se singular, mas não único, pode ajudar a minimizar o isolamento autístico e, talvez, a diminuir a distância protetora estabelecida entre o sujeito autista e o meio social. Donna Williams ajudou realmente a inúmeros. E segue, mesmo depois de sua partida, contribuindo muitíssimo.

Seu primeiro livro é Nobody Nowhere – The remarkable autobiography of an autist girl (publicado no Brasil com o título Meu Mundo Misterioso). Outras autobiografias vieram em seguida e continuam sendo publicadas. Atualmente, são inúmeras. Igualmente, os pais, resolveram se debruçar sobre as letras e contar sobre o cotidiano com um filho autista, o impacto do diagnóstico, os medos, as angústias e os desafios. 

A lista de livros, hoje, é imensa. O legado deixado por Donna Williams é incalculável, sobretudo, para os que precisam se afastar das hipóteses sobre o autismo baseadas em evidências comportamentais, neurológicas, genéticas, etc, para mergulharem num universo de não saber e de a descobrir, trazido à luz pelos relatos que se seguiram aos dela. 

Tendo podido me dedicar mais recentemente à sequencia Nobody Nowhere – The remarkable autobiography of an autist girl e Somebody Somewhere – Breaking free from the world of autism, trago aqui uma pequena introdução ao mundo de Donna Williams como uma forma de homenageá-la pela sua passagem em 2017.

Você vai ler Donna Williams. Se é o primeiro contato com ela, saiba: Donna Williams se abre em seus textos, e revela a sua angústia em fazê-lo. Se já leu Nobody Nowhere, deve ter se impactado com a forma contundente com que ela nos expõe seu “o mundo” cru e violento, que exigiu dela recursos de defesa autística para sobreviver, fechando-se no que ela criou com “meu mundo”. Ela nos conta detalhadamente no segundo livro - Somebody Somewhere, sobre como foi, para ela, ter escrito o primeiro, e você se surpreenderá com a mudança que aconteceu em Donna Williams e em sua vida após a publicação deste.

Somebody Somewhere foi escrito como um testemunho dos efeitos causados pela publicação de Nobody Nowhere. O real da perda do controle sobre seu mundo interior, suas palavras e suas garantias, fizeram com que Donna Williams, ao saber da publicação, tivesse querido poder queimar cada livro, antes que tudo se tornasse irremediavelmente público.

Nobody Nowhere é apresentado como a estória de duas batalhas: a batalha para ficar fora de ‘o mundo’ e a batalha para juntar-se a este; e é dedicado aos que a ajudaram a “dominar as sutilezas da comunicação”. Em Somebody Somewhere, desde a nota introdutória, ela deixa claro que se trata da “estória de alguém que recolheu os pedaços após a guerra”. Um verdadeiro “desarmamento” que, para um autista, representa uma ameaça real de estilhaçamento de suas defesas estrategicamente estruturadas para se proteger da invasão do mundo exterior. Donna Williams relata, em Somebody Somewhere, o desespero de ver exposto ao inimigo o seu mundo interior e os efeitos desta “contaminação por sua exposição”. Ela considera seu primeiro livro, um epitáfio, e o segundo, uma conquista de um sentido de vida, pois “funcionar não era mais uma boa troca para ‘viver’”. 

Em Somebody Somewhere, fica evidente a conquista do sentimento de pertencimento que Donna Williams registra, também como efeito do real da publicação de Nobody Nowhere. Isto possibilitou a ela, buscar e ter bastante sucesso em diminuir o hiato entre sentimentos, sentido e pensamento. 

Observem: Donna Williams distingue claramente “meu mundo” de “o mundo”, buscando, exaustivamente, uma forma de transitar entre estes, e aponta, num determinado momento do texto, “um mundo”, como uma forma singular de se colocar em “o mundo”, e um vislumbre de “nosso mundo”, alcançando o “simplesmente ser”. Donna Williams se empenha em adentrar o mundo dos sentidos, percorrendo um caminho desde o chamado “meu mundo”, para penetrar, embora temerosamente de início e decididamente ao final, “o mundo”, e tentando suportar o custo subjetivo que implica, para ela, envolver sentidos, sentimentos e afetos. A linguagem com sentidos é algo que frustra a catalogação e a sistematização, embora permanentemente buscadas por ela, num recuo ao isolamento autístico. 

Donna Williams é especialista no idioma Inglês, estrutura e fonética, embora declare que, apesar disto, tenha “dificuldades com o uso da linguagem”. Tem um texto muitíssimo bem escrito dentro das regras gramaticais. Isto lhe permite fazer uso de diversos recursos semânticos – onomatopéias, comparações, como se a linguagem houvesse sido, por ela, incorporada. Olhando atentamente, o que poderia parecer metáfora, é comparação - uma figura de linguagem semelhante à metáfora, mas sem produzir o vazio de sentido substitutivo, característico desta. A comparação é possível pela descrição do pensar em imagens, que Donna Williams faz com perfeição (assim como o faz Temple Grandin e alguns outros autistas, por causa da relação estrutural com os signos). A impossibilidade de metaforizar nos é exemplificada na frase: “Se eu aprendesse algo enquanto eu estivesse de pé com uma mulher em uma cozinha e fosse verão, durante o dia, a lição não seria lembrada em uma situação semelhante se eu estivesse de pé com um homem em outra sala e fosse inverno e à noite”. A metáfora é uma figura de linguagem que exige um hiato de significação que só é permitido à articulação significante, pelo vazio de sentido que se instala entre um significante e outro, provocando, nesta figura, um efeito substitutivo. Isto me permite dizer: “Você vai ler Donna Williams”.

A onomatopeia (Tinkle, Toc, toc, Zzzz, Slap, Crunch, etc) muito presente no texto, é um exemplo muito claro de seu gozo verbal com os signos sonoros e do “eco do fato de que há um dizer”, que nos fala Lacan, quando conceitua pulsão, em seu Seminário sobre Joyce. Ela maneja escrita e espaços. Ela faz parágrafos, recua, sinaliza, acentua. É um texto pleno de símbolos e de ícones. Nobody Nowhere já trazia alguns, mas, em Somebody Somewhere, a profusão de signos é enorme. 

O espelho segue sendo um fator importante como elemento de suporte à angústia frente a “o mundo” – “provavelmente, passei muitos anos na frente do espelho”. Ele atravessa a obra passando de “uma porta para o lugar do outro lado” onde encontra Carol, num mundo previsível e familiar, uma companhia e um refúgio; até chegar a ser um elemento do qual Donna Williams consegue alguma distância para entrar em “o mundo”. É fundamental observar o destino dado a seus duplos, Carol e Willie – em Nobody Nowhere figuram como formas de proteção e de adaptação social a “o mundo”; o recurso aos objetos Urso Orsi e Cão Viajante; e o que representa para ela o Grande Negro Nada – angústia gerada frente ao impossível encontro entre palavra e sentido. 

As participações do Dr. Marek (e esposa) e dos Millers em auxiliá-la frente ao desafio de abrir-se para os sentidos e os sentimentos consequentes são cruciais para que Donna Williams chegue a exclamar: “Oh, meu Deus, eu ganhei um corpo!”. Outro ponto destacável é o que ela nos conta a respeito de sua relação com o corpo, com o semelhante, e as suas afirmações sobre a (as)sexualidade e o incurável no autismo – “o sistema”, que poderíamos traduzir como a necessidade permanente de inventar formas de se proteger contra a angústia, com o primado do signo. “A impenetrabilidade é a máxima segurança” – desta, não se pode abrir mão totalmente. “É tudo muito difícil lá fora”.

Somebody Somewhere é um testemunho fiel de como Donna Williams conseguiu “as chaves da porta de ‘o mundo’”.

Em 2017, aos 53 anos, Donna Williams ainda jovem, faleceu de câncer. Agradecemos a ela, por tudo o que pôde, com sua coragem ímpar em revelar seu mundo, nos ensinar sobre o autismo. Tudo o que hoje se pode saber e seguir pesquisando sobre o autismo se deve às revelações impressionantes que nos surgem em cada obra escrita por autores geniais como ela. A estes, nosso eterno reconhecimento.

Não é mais possível seguir uma linha de investigação sobre o tema do autismo sem o aprofundamento na leitura dos relatos autobiográficos, ou mesmo, relatos de pais e cuidadores de crianças autistas, sempre lembrando que a clínica se faz no caso a caso.

Janeiro de 2018




[1] Membro da Escola Brasileira de Psicanálise / Associação Mundial de Psicanálise, Coordenadora do PIPA (e rabiola) Vitória.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Depois da infância. Autismo e Política

Fórum Internacional sobre Autismo. Sábado, 7 de abril de 2018. De 10h às 17h. Barcelona

A presença social do autismo coloca hoje um problema em diversos níveis: fala-se do autismo para referir-se quase que exclusivamente à infância; os signos que descrevem o difundido TEA já são tão amplos que se torna difícil definir suas fronteiras na infância, mas também depois dela; quanto maior é o debate sobre a melhor terapêutica, maior é a invisibilidade daqueles casos que não melhoram como estava previsto.

Não existe, então, nem um discurso, nem um método, que se ocupe, nos dias de hoje, dos adolescentes e dos adultos com autismo. Tampouco esses métodos reeducativos que vociferam para a infância suas “evidências científicas” se ocuparam de realizar um acompanhamento do destino das crianças tratadas com suas técnicas, que corroborariam, assim, as cifras de êxito que proclamam.

O real da puberdade irrompe, então, para por à prova a docilidade do autista educado. Ocorrem, para alguns deles, verdadeiras crises subjetivas, intratáveis para a família e sem respostas eficazes por parte da administração. Aqueles autistas que não encontraram a estabilidade que permite habitar o mundo são considerados, assim, casos graves, irrecuperáveis e são segregados em instituições mais ou menos coercitivas, submetidos a uma única resposta institucional: a contenção física e medicamentosa. Com a adolescência e a idade adulta finaliza-se, então, a pergunta sobre o autismo.

Mas, que destinos toma aquele autismo que foi diagnosticado na primeira infância? São conhecidos aqueles casos que responderam bem às propostas terapêuticas oferecidas. E são conhecidos, também, aqueles que encontraram, por seus próprios meios, um modo de inscrever seu sintoma no vínculo social. Entretanto, onde se encontram os autistas para os quais a estabilidade que necessitam questiona todo tipo de modelo assistencial existente? Esse autismo, aquele que é resistente a qualquer abordagem terapêutica ou reeducativa é, de fato, a resposta à pergunta “O que é o autismo?” E é a excepcionalidade de cada um desses casos a única aproximação possível que os psicanalistas tomamos seriamente.

Uma prova disso são as diversas instituições criadas nas últimas décadas por psicanalistas de orientação lacaniana, que demonstram, a cada vez, que a instituição pode converter-se para o adulto com autismo em um outro permeável a seu sintoma. O valor de invenção dessas instituições merece, nesses momentos, elaborar-se e se transmitir à luz, tanto das instruções de “boas práticas”, como das recomendações da Organização Mundial de Saúde sobre as “medidas integrais baseadas na pessoa”, e a Convenção sobre os direitos das pessoas com discapacidade.

Encontramo-nos ante uma questão fundamentalmente política à qual a Escola Lacaniana de Psicanálise responde com a organização deste novo Fórum internacional, que tem por título “Depois da infância. Autismo e política” e que terá lugar em Barcelona, em 7 de abril de 2018.

Sob os auspícios da Associação Mundial de Psicanálise, convocamos os políticos concernidos pelo tema e os cidadãos em geral a este fórum de debate, que contará com a presença internacional de psicanalistas de orientação lacaniana, de associações de pais de pessoas com autismo, de profissionais diversos que sustentam sua prática e investigação a partir da pergunta sobre o autismo mais além da infância, e de sujeitos que dão testemunho, a seu modo, do real a que se encontram confrontados.

Conversações sobre o Forum e sua política. Por Neus Carbonell e Iván Ruíz

IVÁN: Para o 3° Forum sobre autismo que a Escola Lacaniana de Psicanálise está organizando, escolhemos um tema fundamentalmente político : o que acontece com o autismo mais além da infância, na adolescência e na idade adulta ?

NEUS: De fato, se trata de um tema fundamentalmente político, mesmo que possa parecer de outra natureza. É politico, em primeiro lugar, porque põe os processos de segregação, no coração de nossa sociedade, em destaque . Assim, é frequente encontrar programas e recursos destinados a crianças que foram diagnosticadas como autistas, realmente somos testemunhas de que o interesse no autismo durante a infância não para de crescer. Sem dúvida, quando estes sujeitos chegam a adolescência e logo depois à idade adulta, não existe para eles um discurso que os acolha. O que implica que o que a sociedade pode oferecer a estes sujeitos e a suas famílias é francamente limitado.

O autismo é um diagnóstico que se refere fundamentalmente à infância. Os programas que existem, os recursos, a presença social, tudo isso faz referência quase que exclusivamente à infância. Sem dúvida, quando e onde se fala do autismo na vida adulta? Por tudo isso, nosso Fórum quer abordar exatamente a pergunta que você coloca: o que acontece com o autismo mais além da infância? Nós temos algumas ideias a partir das quais vamos elaborar nosso programa, mas esperamos que este Encontro nos permita responder a esta pergunta desde múltiplas perspectivas. Por exemplo, a partir da perspectiva do diagnóstico, da medicação, da clínica, dos recursos sociais, enfim, dos projetos de vida que a sociedade é capaz de oferecer a estes sujeitos e a suas famílias. Todas estas questões são políticas porque trazem em primeiro plano o modelo de sociedade que queremos. Têm a ver com a ética, com a lei, com a distribuição de recursos.

NEUS: Nós colocamos uma primeira questão : O autismo infantil é definido na Psiquiatria, que segue os manuais mais usuais como o DSM a partir de alguns itens, de maneira que se diagnostica a partir de testes. Entretanto, não estou certa que os testes possam ser implementados a partir da puberdade. Qual sua opinião ? Que mudanças a puberdade introduz que modificam a definição de autismo da infância ?

IVÁN: É verdade, a puberdade explode as melhores intenções daqueles que queriam enquadrar dentro de um teste confiável de TEA os que foram crianças com autismo. Diria mais, a puberdade no autismo presentifica muitas vezes, para os profissionais, mas sobretudo para as famílias, que o que se tinha preparado para ajudar a esta criança, se funcionou em seu momento, já não servirá. A insistência do adulto fracassa, há que se inventar outras coisas.

Os testes de diagnósticos foram elaborados a partir de uma idéia de normalidade do que é uma criança, mas uma criança que, se espera, chegue a ser um adulto de pleno direito.

É verdade que alguns adolescentes com autismo conquistaram uma estabilidade que lhes permite arranjar-se, por exemplo, com as mudanças em seu corpo, em sua imagem e em seus modos de obtenção de satisfação. Mas para outros, ao contrário, tudo isto fracassa uma e outra vez, seu modo de se virar sem a identificação a alguma imagem da adolescência torna-se insuportável para os adultos que estão com eles.

NEUS: Jean-Pierre Rouillon, em uma conferência que deu este ano em Barcelona, assinalou muito acertadamente que a sexualidade é a forma como alguns humanos tratam a irrupção do gozo que invade seus corpos a partir da puberdade. Os autistas são sujeitos que não contam com a sexualidade para enfrentar este gozo e devem então recorrer a outras formas de tratamento. Esta forma de colocar a questão é francamente interessante. Para começar, tomar a perspectiva do gozo supõe, em primeiro lugar, partir da noção de que não existem formas de gozo melhores que outras. Portanto o autista não está em déficit frente a uma suposta normalidade. Em todo caso , as coisas são mais difíceis posto que não pode recorrer às soluções prêt-à-porter e deve construir uma à sua medida. Colocar o que ocorre ao sujeito a partir da puberdade desde as dificuldades para viver em um corpo que exige a satisfação, supõe entender que não há maneira de chegar à vida adulta com certa estabilidade se o autista não encontrou um modo de funcionar no mundo suficientemente consistente que lhe permita ter onde apoiar-se. Por isso, nesta etapa podem ocorrer crises subjetivas realmente devastadoras. Aqui também podemos ver porque essas crianças que foram mais ou menos dóceis às técnicas reeducativas da infância podem entrar em severas crises, já que essas técnicas não lhes servem para tratar o que lhes sucede no corpo.

IVÁN: Este é um tema fundamental, uma vez que para muitos adolescentes as técnicas reeducativas não podem ser aplicadas a não ser com coação, com uma vontade férrea de substituir as condutas que o garoto tem por aquelas que o adulto quer que ele tenha. Então, não é possível pensar que o sujeito possa fazer seus os recursos que o adulto lhe oferece se ele se vê obrigado a defender-se desta opressão. Mas, há algo mais. Reduzindo-se a imposição do adulto sobre o sujeito, desapareceria imediatamente sua posição defensiva e, assim, poderia aceitar o adulto como lugar de referência – tudo seria mais fácil.

O problema é que o autista incorpora esta resposta defensiva, infligindo dor ao próprio corpo, por exemplo, e a generaliza mediante qualquer imposição que venha das pessoas que o rodeiam (o anúncio da finalização de uma atividade), do entorno (o pôr-do-sol) ou de seu próprio corpo (a sensação de fome ou uma dor de barriga) – para mencionar algumas situações comuns. Mediante isto, nossa margem para ajudá-los fica reduzida; e o que é fato é que quanto mais imposição do adulto mais imposição do autista sobre seu corpo.

NEUS: Quero, ainda, acrescentar algo mais. Mesmo que as invenções que o sujeito possa alcançar sejam fundamentais, não podemos esquecer que estas soluções podem ser, aos olhos dos outros, bastante modestas e, inclusive, das mais incompreensíveis ao sentido comum. Devemos ter sempre presente que quando propomos a invenção não podemos nos referir unicamente àquelas que gozam de prestígio social - por exemplo, o autista que consegue converter-se em um bom músico.

Às vezes, são as mais estranhas: o menino que se sustenta por meio de perguntas insistentes e sem respostas; o menino que se faz acompanhar das máscaras e da música dos filmes da Disney. Além disto, as soluções encontradas nunca são definitivas, nunca chegam a ter o valor de uma metáfora do corpo que experimenta. Por isto, repetem-se várias vezes, o que implica que aqueles que acompanham o autista devem estar dispostos à repetição incansável e nunca definitiva da solução, por vezes extremamente frágil.

IVÁN: Não é pouca coisa isto que você diz.

NEUS: Realmente. E implica que para estes sujeitos devem existir alguns outros dispostos a isto. O que somente se consegue a partir de um trabalho clínico muito consistente. Não é nada certo que isto esteja garantido para eles. Por esta razão, muito frequentemente o tratamento medicamentoso vem no lugar de um fracasso e a agressividade dos adultos em direção a estes sujeitos – que se escuta em algumas instituições, sobretudo residenciais – é a resposta frente ao que não podem suportar, nem eles nem a direção clínica da instituição.

IVÁN: Trataremos, neste Fórum, da questão da agressividade. Por isto, acreditamos que é um fórum fundamentalmente político. A idade adulta coloca algumas dificuldades no que está disposto na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, aprovada pela ONU em 2006. Nela, se reconheceu a importância de dar a estas pessoas “a oportunidade de participar ativamente nos processos de adoção de decisões sobre políticas e programas, incluídos os que lhes afetam diretamente”. Nos casos de sujeitos em que o seu autismo os mantém distantes de fazer valer este direito, como medimos o que mais convém a um autista adulto se seus modos de resposta não são, muitas vezes, os que somos capazes de escutar?

NEUS: O que esperamos deste Fórum?

IVÁN: Com este Fórum, procuraremos tornar visível uma realidade que desespera as famílias, coloca contra a parede as instituições e os profissionais que nelas trabalham, e que politicamente não está atendida. Queremos dar a palavra à angústia que hoje não dispõe de vias para ser tratada e convocar nossos políticos a dimensionar o que está em jogo e o que temos, todavia, de fazer.

Os psicanalistas estamos em condições de elaborar um discurso sobre o que ocorre com o autismo mais além do diagnóstico usado atualmente, uma vez que os sujeitos atravessam a puberdade ou chegam à idade adulta com um autismo que adquire diversas formas no autismo decidido – como escutei você assim nomear em determinada ocasião -, na Síndrome de Asperger, na esquizofrenia, na debilidade cognitiva, enfim, no modo de estabilização de cada sujeito.

Contaremos com a presença de psicanalistas de todo o mundo, membros da Associação Mundial de Psicanálise, assim como de profissionais que sustentam seu trabalho no campo da educação, da saúde mental, das instituições dia e residenciais, instituições de familiares, que conhecem de primeira mão os limites que o adolescente ou o adulto com autismo encontra.

Neus Carbonell e Iván Ruíz

domingo, 26 de novembro de 2017

“O Bem-dizer da psicose”

Por Bruna Brito


No encontro de Julho do Seminário por conta e risco “Autismo e Psicose Infantil- da clínica à política, e retorno”, coordenado por Ana Martha Maia, recebemos a convidada Samyra Assad (EBP/AMP), coordenadora das Lições Introdutórias no Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais e Diretora da Clínica d’ISS em Belo Horizonte/Minas Gerais. Samyra nos apresenta um caso de um sujeito esquizofrênico, comentado por Jacques-Alain Miller em seu texto “A invenção psicótica”[i], além de apresentado por quatro vezes em eventos da EBP, com tradução em outras línguas[ii].

Mas, o que nos ensina um caso, apresentado há quase 20 anos atrás? Samyra nos coloca esta questão de partida. Sem dar resposta a esta instigante pergunta, provoca-nos ao afirmar que se trata do “bem dizer da psicose” e, junto com ele, o paradigma clínico da esquizofrenia. É um paradigma a respeito do “não ser dono de seu corpo”, nos lembra. Trata-se do corpo como parceiro como algo elementar nesta clínica. E a invenção vem então como a possibilidade de se ligar a esse corpo.

“Sou uma central telefônica sem telefone”, diz o sujeito a sua analista. Com esta fala, ele afirma a possibilidade de receber a mensagem ao mesmo tempo em que denuncia a impossibilidade de transmiti-la. Mas, sabe “bem-dizer” desta sua condição. Esse bem-dizer tem seu lugar na analise que ele a procura, como ele mesmo diz “por necessidade”. Aqui retomamos a indicação de Samyra: “o psicótico conduz o tratamento”. É ele quem diz o que pode dizer ou não, até onde se pode caminhar ou não. Cabe ao analista seguir , e sobretudo respeitar, tais pistas.

Ser a “central telefônica sem telefone” é uma das invenções dentre tantas outras que este sujeito constrói em tratamento. Uma delas diz respeito a encher o quarto, que ele habita, com diversos eletrodomésticos, restando apenas um pequeno espaço para dormir no chão. É esta invenção que possibilita o sujeito condensar o seu gozo fora do corpo, inventando um modo de estabilização.

É nesta postura ética frente ao bem-dizer da psicose na experiência analítica que as palavras vão adquirindo a possibilidade de mensagem. A função do endereçamento ao analista, insiste Samyra, é uma das mais importantes na clinica das psicoses. E este lugar de endereçamento, só é possível ocupa-lo a partir da postura de não saber, essencial para o analista na clinica das psicoses, na qual o sujeito suposto saber não tem função.

O que tem de atual neste caso? Responderei esta questão a partir do encontro com o texto de Miller sobre a invenção que me conduz ao relato do caso de Samyra[iii]. Há alguns anos, deparo-me com este caso para auxiliar em uma pesquisa sobre a transferência na psicose. Porém, frente à aposta da analista nas invenções, percebo que este caso extrapola o âmbito da mera busca de saber. Seus relatos deste caso, assim como os comentários de Miller, auxiliam-me, de forma fundamental, na prática como supervisora em um estágio de saúde mental. Frente aos impasses da prática da supervisão, o texto de Samyra me auxilia a apostar nas invenções em casos de psicose.

Retomar a leitura de “A central telefônica sem telefone”, a partir deste recente relato, confirma novamente a sua riqueza clinica e o quanto este caso ainda nos ensina. Em um momento em que a EBP-Rio nos convida ao retorno do estudo da psicose ordinária, tema do encontro da AMP em 2018, debruçar sobre este caso, mais uma vez, nos elucida e nos provoca no fazer clínico e o que se inventa em casa analise. Samyra Assad nos dá testemunho do bem-dizer da psicose, mas também da postura ética em uma transmissão comprometida com a orientação lacaniana. 


[i] MILLER, J.-A. A invenção Psicotica. São Paulo: Opção Lacaniana, 36, Maio/2003, p. 6-16.

[ii] ASSAD, S. La logique des coulisses. Paris : L’essai – Revue Clinique Annuelle, n. 3, 2000, p. 53-57.

[iii] ASSAD, S. Central telefônica sem telefone., n. 11, Belo Horizonte: Revista Curinga, 1998, p. 102-107.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

O lugar da psicanálise no acolhimento e no atendimento das crianças e adolescentes autistas

Como situar o lugar da psicanálise no tratamento da criança autista? Propomos cinco eixos de respostas.

A formação analítica, requer a experiência de uma análise pessoal, vez que oferece aos atendentes um instrumento poderoso para situar suas ações à distância certa dos sujeitos autistas. Significa permanecer longe dos ideais de normalização ou de normalidade, que são incompatíveis com o atendimento profissional de sujeitos que têm um sofrimento.

O respeito à posição do sujeito é a bússola que orienta esta ação. Não se trata, de forma alguma, de deixar o adolescente ser o brinquedo, por exemplo, das suas estereotipias, repetições, ecolalias. Consideramos que, esse é o primeiro tratamento elaborado pela própria criança, com o qual se defende, além do que introduz uma presença apaziguadora, assim como elementos novos que complexará « o mundo do autismo ».

A localização da angústia: o principal desafio é fazer com que a criança possa localizar em si, a angústia e a perplexidade que são desencadeadas pela interpelação de um outro e pela instalação das funções do corpo em sua articulação com a demanda – se alimentar e se deixar alimentar, perder os objetos urinários e anais, olhar e ser olhado, ouvir e se fazer ouvir. Os psicanalistas há muito tempo notaram a dimensão de rituais de interposição, que constituem numerosos traços sintomáticos invalidantes para o sujeito autista. A criação ou a descoberta para a criança de um « objeto autista», qualquer que seja a sua forma, é frequentemente uma fonte fecunda por meio do qual, cria laços e espaços novos, mais livres das coerções iniciais.

Uma relação privilegiada ao saber: os psicanalistas privilegiam a inscrição das crianças autistas nos dispositivos de aprendizagem. Eles realçam que o sujeito autista está direcionado, quase sempre, « ao trabalho ». Os ditos autistas « de alto nível » testemunham desse domínio, de um investimento massivo do pensamento, da linguagem e do domínio cognitivo, onde eles encontram inspirações inéditas.

De modo geral, para todas as crianças, os educadores buscam privilegiar os apontamentos pedagógicos e educativos que favoreçam as adaptações, e assim dar lugar às singularidades sociais e cognitivas das crianças autistas. Os professores e os educadores relatam o que elaboraram junto à criança ou ao adolescente.

Os psicanalistas e os atendentes, reagrupados no seio do Instituto psicanalítico da Criança, junto aos representantes de todas as categorias profissionais presentes no campo da infância, se mostram bastante interessados nos sistemas de saúde e de educação, existentes na França, destinados às crianças e aos adolescentes autistas. O IPC permite que sejam partilhadas entre os participantes, as respectivas intervenções e inclusive, diferenciá-las entre os profissionais de saúde, de educação, e os pais.

Daniel Roy

Tradução: Gleuza Salomon

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Impor uma ciência totalizante ao autismo

Jean-Claude Maleval

Impor uma ciência totalizante ao autismo a quem conhece os limites e as incertezas deste campo é a ambição de M. Fasquelle e alguns deputados, Os Republicanos, a favor de um projeto de resolução registrado na Assembleia Nacional. De onde extraem uma ciência pronta sobre o autismo? Ela advém de recomendações de 2012 elaboradas pela mais Alta Autoridade de Saúde (HAS). Ora, os deputados fazem muitos desvios destes pontos. As recomendações da Alta Autoridade em Saúde tentam auxiliar os clínicos em suas decisões e a preservar o bom discernimento dos mesmos. Ao transformarem estas recomendações em injunções, os deputados querem ditar aos profissionais o que devem fazer e pensar, privando-os da responsabilidade de seus atos e da necessária adaptação destes à singularidade do paciente. Pelo prejuízo à liberdade de prescrição, milhares de médicos reagiram rapidamente, enquanto que os psicólogos e psiquiatras dos hospitais denunciaram o perigo que corre a liberdade acadêmica, inseparável de toda elaboração e difusão dos conhecimentos científicos. No que concerne ao tratamento dos autistas, os deputados, que certamente não leram as 465 páginas do argumento científico da HAS, acreditam, ingenuamente, que os 3 métodos recomendados são cientificamente válidos. Ora, não são deforma alguma! Eles são recomendados por falta de coisa melhor. Na meta-análise, foi regularmente constatado que mais de 50% das crianças não melhoram. Os trabalhos posteriores a 2012 confirmam que as melhoras da cognição e dos comportamentos do método ABA (dos 3, o mais considerado) são “moderados”, enquanto que, aquelas obtidas através da adaptação social e do ponto central dos distúrbios autísticos são “fracos”. Isto corrobora uma expertise realizada em 28 estruturas experimentais francesas, que dispunham de condições muito favoráveis para dar curso ao método ABA, graças a financiamentos e a um alto nível de enquadramento geral. Depois de 4 anos de tratamento, 19 crianças em 578 conseguiram ter acesso a um “espaço comum”. A taxa de sucesso é em torno de 3%, o que confirma um consenso na literatura científica atual: os resultados do método ABA concernentes à “adaptação social” são “fracos”. A equivalente à HAS inglesa, a NICE, prega, desde 2013, intervenções psicossociais multidisciplinares no tratamento do autismo e não faz mais nenhuma menção ao método ABA. Acreditando não dispor de elementos suficientes para tomar uma posição, por não poder considerar os estudos de caso como documentos-provas, a HAS classifica a psicanálise e a psicoterapia institucional entre os “métodos não consensuais” no tratamento dos autistas. Escutando apenas sua própria vontade, os deputados passam por cima dos detalhes de forma abusiva incluindo-os na lista dos “não recomendáveis”. Um estudo do INSERM de 2014 mostra a eficácia dos tratamentos psicodinâmicos, podendo levar a HAS a modificar sua posição a respeito. Uma petição foi assinada por numerosas personalidades que rapidamente alcançou milhares de assinaturas, para que profissionais orientados pela psicanálise possam continuar sendo integrados à oferta de tratamento para autistas. Antes de “nos empenharmos sistematicamente sobre a responsabilidade penal dos profissionais de saúde que se opõem aos avanços científicos”, nós não deveríamos examinar a responsabilidade política dos deputados mal informados que procuram resoluções liberticidas?

Tradução: Rachel Amin
Revisão: Bartyra Ribeiro de Castro

Sobre uma doidice deletéria em torno do autismo

François Ansermet
Professor de pedopsiquiatria na Universidade de Genebra, chefe do Serviço de psiquiatria de crianças e adolescentes nos Hospitais Universitários de Genebra, Psicanalista.

É surpreendente que o autismo se torne a essa altura um debate político. Talvez seja um signo paradoxal de uma época em que todos estão conectados, ligados a pequenas máquinas que isolam uns dos outros, que impedem os encontros com a ilusão de facilitá-los. O que quer que seja, estamos na época de uma doidice em torno do autismo.

1/ De onde vem essa doidice?

Há diferentes eixos a se considerar:

- uma epidemiologia que se tornou confusa: a porcentagem varia de notificação para notificação

- as transformações nas classificações que se tornam cada vez mais inclusivas e cada vez menos diferenciais – o que parece contraditório com o projeto do momento atual de isolar suas bases biológicas, o que necessitaria, sobretudo, pesquisas baseadas em endofenótipos precisos, bem isolados – no que a clínica orientada pela psicanálise poderia contribuir de maneira significativa.

- paralelamente a essas classificações, os tratamentos cada vez mais estandardizados são estabelecidos segundo guidelines que não levam mais em conta a clínica, do caso a caso – enquanto que a clínica é um método que dá acesso à singularidade enquanto tal, que é aquilo que é próprio do humano. É verdade que estamos na época do Evidence Based Medicine, mas esta deveria ser cruzada com as questões da medicina personalizada, com uma medicina centrada na pessoa, que estão também no centro da pesquisa médica de hoje;

É DELETÉRIO COLOCAR UMA RELAÇÃO DE FORÇAS, EM TERMOS DE EXCLUSÃO

- pode-se também reportar essa doidice, que desemboca num projeto de interdição da psicanálise, na abordagem do autismo, a um mal-entendido sobre o que significam as bases genéticas: o fato de que um indivíduo tenha um acometimento em seu neuro-desenvolvimento – o que é o caso no autismo – não diz qual sujeito vai se deduzir disso. O fato de que existam bases biológicas não exclui a psicanálise, e seu trabalho centrado no sujeito, o que ele manifesta de específico, seu sofrimento, o de seus pais... Em minha opinião é deletério colocar uma relação de forças, em termos de exclusão recíproca, entre a pesquisa neurobiológica ou genética e a clínica psicanalítica. Fazendo-se uma certa retrospectiva, pode-se mesmo ser surpreendido por essa maneira de colocar as coisas.

O MAL ENTENDIDO DAS BASES GENÉTICAS

A psicanálise não é um campo obscurantista que gostaria de dispensar os ensinos da neurobiologia, da genética e de seus dados contemporâneos. Como o demonstra o fato da plasticidade neuronal, um dado vindo da abordagem científica pode levar a um achado inédito entre as neurociências e a psicanálise, nesse caso em torno da irredutível questão da singularidade: o que faz com que cada humano seja único, diferente e insubstituível.

POSICIONAMENTOS UNICAMENTE IDEOLÓGICOS

2/Como sair da doidice?

Estar numa abordagem fundada sobre os dados da ciência, permitir cuidar do autismo se apoiando sobre as evidências vindas da pesquisa, supõe não se deixar levar a posicionamentos apenas ideológicos, tais como aqueles que invadem os debates atuais. Tal perspectiva implica, ao contrário, numa abordagem que se apoie sobre conquistas, que zele por não desfazer os laços com a psicanálise, e com sua clínica, que abram a via para as dimensões próprias ao sujeito. A psicanálise, mais do que ser rejeitada, deveria, ao contrário, ser colocada na posição de fiadora, a fim de que tais dimensões possam ser incluídas nas novas abordagens do cuidar a serem desenvolvidas com as pessoas autistas.



Trad: Cristina Drummond

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Manifesto contra a Lei 13.438

O Observatório de Políticas do Autismo da Escola Brasileira de Psicanálise/Federação Americana de Psicanálise da Orientação Lacaniana, empenhado em fazer valer o discurso analítico na sua relação com o discurso do mestre, que se desdobra na política, na ciência, na saúde e na educação, vem manifestar o seu repúdio à Lei 13.438, sancionada pelo Presidente Michel Temer em 26 de abril de 2017, com o apoio de parlamentares de vários partidos, que altera o artigo 14o do Estatuto da Criança e do Adolescente, para tornar obrigatória a adoção, pelo Sistema Único de Saúde (SUS), de protocolo que estabeleça padrões para a avaliação de riscos para o desenvolvimento psíquico das crianças. Dita lei tem 180 dias para ser regulamentada, e é nesse espaço de tempo que nos cabe dirigir-nos ao Ministério da Saúde para nos manifestarmos contra a sua regulamentação.

Alguns membros da EBP participam, desde 2012, do Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública (MPASP), criado por psicanalistas de várias orientações, para lutar contra a tentativa de reservar às terapias cognitivo-comportamentais (TCC) o tratamento dos autistas. Sabemos o quanto essa tentativa fracassou, na França e na Bélgica, graças ao Movimento desencadeado por nossos colegas da AMP que lutaram, ativamente, contra a aprovação de qualquer lei que excluísse a psicanálise do tratamento dos autistas.

Nesse momento em que estamos particularmente atentos às relações do discurso analítico com o discurso do mestre, consideramos que protocolos destinados a instrumentalizar os pediatras do SUS para detectar anomalias do desenvolvimento infantil entre 0 e 18 meses, correm o risco de patologizar indevidamente a primeira infância e ampliar desmesuradamente as hipóteses diagnósticas de autismo, estigmatizar e segregar essas crianças, além de interferir negativamente no desejo da mãe, executando em ato aquilo que a avaliação procuraria evitar[1]. Desde 2007, temos feito uma leitura crítica aos protocolos preventivos, sustentada nos argumentos de Jacques-Alain Miller em seu debate, com Jean-Claude Milner, publicado no pequeno volume: Você quer mesmo ser avaliado?[2] 

A lei 13.438, ao determinar a obrigatoriedade da aplicação, a todas as crianças, nos seus primeiros 18 meses de vida, de protocolo ou outro instrumento destinado à detecção, em consulta pediátrica de acompanhamento, de risco para  seu desenvolvimento psíquico, não assegura, de forma alguma, um acompanhamento adequado para essas crianças. Já proliferam os cursinhos de formação de pediatras para tal detecção precoce, por profissionais que não têm, na maioria das vezes, a formação adequada para lidar com o sintoma, construído, no que concerne à psicanálise, sob transferência, e não necessariamente destinado a ser eliminado.

A reportagem de capa da Revista Veja de 26 de julho de 2017 é um sinal do tratamento que vem sendo dispensado ao autismo na atualidade, tentando eliminar a psicanálise do seu horizonte.  Mais preocupante ainda é convocar a população a responder ao M-CHAT (Modified Check List for Autism for Todlers), do qual Veja publicou 10 questões destinadas a alertar os pais de potenciais autistas.

Alguns colegas psicanalistas, com importante percurso nas políticas públicas, têm se manifestado enfaticamente contra a instituição dos protocolos preventivos e a regulamentação da lei 13438, e nos convocam a apoiar seu texto de análise crítica, que traz proposições de ações para enfrentar o problema em questão[3]. Com argumentos claros e bem fundamentados, os colegas demonstram a inadequação e estranheza da aprovação da lei 13.438, os riscos de patologização da infância, nos lugares mais recônditos do Brasil, assim como um estudo comparativo com outros países, com uma nítida convergência na opinião de que o rastreamento de crianças pequenas não deve ser realizado. Além de apontar os riscos de tal rastreamento obrigatório em consultas pediátricas no SUS, com o desmonte do estado democrático de direito e a redução das políticas sociais, os autores deste documento apontam caminhos possíveis no campo das políticas públicas, sem criar uma inflação de diagnósticos cujos beneficiários não serão, seguramente, as crianças brasileiras e suas famílias. Aqueles que quiserem conhecer e apoiar este documento podem escrever para o seguinte endereço: alerta.lei.13438@gmail.com.

Devemos examinar com todo o cuidado a suposta epidemia de autismo dos últimos anos, que coincide com as sucessivas revisões do DSM e a inclusão, no Transtorno do Espectro Autista, de patologias que até 1980 não faziam parte dessa categoria. O DSM absorve progressivamente outros diagnósticos, ao mesmo tempo que elimina a categoria das psicoses infantis, estendendo arbitrariamente a categoria do autismo. O transtorno do Espectro Autista, juntamente com o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade e o Transtorno do Espectro Bipolar promovem uma excessiva medicalização da infância, uma falsa etiologia genética e toda a indústria de testes e tratamentos preconizados. Estamos a poucos passos de uma infância refém da indústria farmacêutica, como bem demonstra Agnès Aflalo em seu livro Autismo: novos espectros, novos mercados[4].

A pretensão científica dos novos diagnósticos, ao contrário do que se poderia pensar, não se apoia em novas descobertas ou em trabalhos científicos confiáveis, mas muitas vezes, em trabalhos encomendados pela indústria farmacêutica. É toda a questão da objetividade da pesquisa biomédica, que não pode ser aplicada indistintamente às demais especialidades médicas e à psiquiatria. Quando esta última se afasta da psicanálise em busca de uma validação científica, ela acaba se perdendo em um cientificismo perigoso, no qual a patologização do comportamento infantil cria um fardo para as crianças, suas famílias e a sociedade. É assim que o autismo, entre 1993 e 2004, tem sua prevalência multiplicada cinco vezes. Não há apenas o risco de prescrições injustificadas, mas também de descaso com a palavra dos pacientes e suas famílias, por menos que esses pacientes venham a se expressar verbalmente. As TCC, aliadas do DSM, contestam as psicoses infantis em favor do Transtorno do Espectro Autista e promovem os métodos de tratamento ABA e TEACCH.

Na psicanálise, o sintoma é fabricado com palavras, e também tratado com palavras. Ele não é objetivo, e o psicanalista faz parte dele. A criminalização dos comportamentos infantis e o silêncio promovem as passagens ao ato. A psicanálise, mais do que uma ciência, é a arte de tratar, caso por caso. Os pediatras, por mais boa vontade que tenham, geralmente não estão familiarizados com os conceitos de inconsciente, transferência e pulsão, balizas fundamentais para a escuta das crianças. A psicanálise, como queria Freud, não é uma prática médica, mas antes, profana. Se o real da libido não é levado em conta, só resta o real biológico, buscado com sofreguidão pelas hipóteses cientificistas.

O Observatório do autismo da EBP/FAPOL segue na batalha do autismo[5]: batalha com as políticas públicas que impõem tratamentos padrões a partir de etiquetas, enquanto a política da psicanálise enfatiza o ser falante e seu modo singular de gozo; batalha no trabalho com os pais como parceiros, esvaziando a ideia de que seriam culpados pelo autismo de seu filho; batalha para marcar a diferença entre a psicanálise e os métodos de aprendizagem que impõem um saber prévio ao sujeito autista, em lugar de um tratamento sob medida; batalha contra os métodos de avaliação que apostam na prevenção, nos diagnósticos padronizados e na medicalização da infância.

A psicanálise é uma forma de fazer laço social. Entramos na batalha do autismo, para defender a presença da psicanálise no tratamento desses sujeitos, que podem ter muita dificuldade para entrar no laço com o outro. A prática com os autistas demonstra a importância, para eles, de fazer laço. Eles o fazem, hoje, graças a suas famílias, seus educadores, seus terapeutas, e todos os profissionais que se interessam por suas maneiras bem singulares de estar no mundo. É por isso que convidamos todos aqueles que trabalham e acreditam na importância da presença da psicanálise na abordagem do autismo, a estarem alertas em relação à Lei 13.438.


Observatório de Políticas do Autismo da EBP/FAPOL





[1] PIMENTA, P. Relação mãe-filho sob medida: a prevenção do Real. IPSM-MG, 28.03.2007.
[2] Cf. MILLER, J.-A. e MILNER, J.-C. Évaluation. Entretiens sur une machine d’imposture. Paris, Agalma, 2004.
[3] Cf. MASCARENHAS, C., KATZ, I., SURJUS, L., COUTO, M. C. V. e LUGON, R. “Sobre a lei 13.438, de 26/04/2017: Riscos e Desafios”.
[4] AFLALO, A. Autisme: nouveaux spectres, nouveaux marches. Paris, Navarin Le Champ freudien, 2012.
[5] MAIA, A. M. W. As crianças do Um sozinho – a loucura na infância. Inédito.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

O ACPOL rumo ao Observatório sobre Políticas do Autismo da EBP. FAPOL


Gleuza Salomon

Membro do Observatório sobre Políticas do Autismo da EBP. FAPOL


O Ateliê de Clínica Psicanalítica da Orientação Lacaniana (ACPOL) prosseguiu em 2017 tanto com as atividades de controle individual quanto as da clínica, entre várias outras. Trataram-se de atividades que ocorreram ao longo do ano, notadamente nos dias 24 de junho, 8 e 22 de julho, que se deram em conjunto com os colegas psicanalistas, pedagogos, estudantes de psicologia, pais e familiares de autistas. Nessas reuniões foram priorizados os Estudos de Caso, provenientes desses participantes do Ateliê, constituindo-se assim na base da Conversação Clínica. Contou-se com apresentações de cada colega, nas quais inseriram-se pelo desejo de transmitir algo de sua experiência pessoal com o autismo, seja na escola, hospital, ou clínica particular.

Nessas atividades, importa destacar, esteve em evidência a observação que o psicanalista suíço François Ansermet, fez em entrevista que concedeu ao Boletim Pequena Infância em 1987, ocasião em que tratou da sua prática médica, enquanto responsável pela UTI perinatal do serviço de pediatria em Lausanne. Notadamente o trecho em que observou que “as questões que são postas a partir do autismo para a medicina perinatal, reúnem de um certo modo, problemas situados pelo autismo. O desafio da psicanálise na clínica perinatal é o nascimento do sujeito. Do mesmo modo, o autismo pode ser visto como uma situação clínica que faz com que o sujeito se petrifique no processo mesmo da sua emergência.” Da direção clínica que considera o autismo como “O Estado Originário Do Sujeito” extraiu-se o conceito que balizou o Ateliê e que permeou o debate.

No dia 8 de julho, por exemplo, a conversação se iniciou com a intervenção de Fernanda Baptista, que discorreu sobre a clínica com bebês e a proposta de protocolos para a Intervenção Precoce nos possíveis transtornos mentais na primeira infância, no caso o protocolo “Preaut”, que antecedeu o IRDI (Indicadores Clínicos Para o Desenvolvimento Infantil). Baptista se perguntou sobre o uso e aplicação desses protocolos, e sobre qual fundamentação teórica psicanalítica justifica a intervenção precoce no bebê e sobre o lugar que o psicanalista pode ocupar neste processo. Essa conversação teve como base de pesquisa o texto “Relação Mãe-filho sob medida: a prevenção do Real” de Paula Pimenta, integrante do Observatório do Autismo da EBP, e do texto de Maria Cristina Kupfer, referente ao IRDI, intitulado “Valor preditivo de indicadores clínicos de risco para o desenvolvimento infantil: um estudo a partir da teoria psicanalítica.” Nele Kupfer relata que durante os exames foram anotados os indicadores clínicos (IRDI) presentes, ausentes e não verificados. Nesta pesquisa, é a ausência de indicadores que sugere um risco para o desenvolvimento da criança. Assim, os indicadores, quando presentes, são indicadores de desenvolvimento, e quando ausentes, são indicadores de risco para o desenvolvimento.1

O que se visa por meio deste protocolo preventivo é fundar um olhar da medicina pediátrica sobre a vida psíquica do bebê e detectar precocemente, por exemplo, o autismo. A crítica à proposta de protocolos preventivos se fundamenta n o princípio da clínica da orientação lacaniana que é a “insondável decisão do ser”. Segundo ela trata-se sempre de uma escolha originária e precoce do sujeito bebê que se reatualiza ao longo da sua vida.

Esta temática foi central no acontecimento extraordinário que se deu, coincidentemente, no mesmo dia 8 de julho de 2017, na cidade de Turim, na Accademia Torinese dell'inatteso, que se deu às lufadas do movimento milleriano intitulado “la movida Zadig”, que aborda “o instante de ver”, no qual Miller trabalha a proximidade filológica da raiz da palavra escolha que, por primeiro, em francês, significou ver. Foi no âmbito desta iniciativa em Turim que Miller fundou o Seminário de Política Lacaniana, que inscreveu no Ano Zero do Campo Freudiano. Esse memorável seminário de Turim foi intitulado "Os heréticos". Mas, o que teve a ver esse encontro na Itália com o Ateliê da mesma data em Curitiba?

Ocorre que no final da segunda parte desse Seminário, que ocorreu dia 22 de julho, Jacques-Alain Miller introduziu, de modo enfático, a questão da escolha originária. Miller defende que a orientação lacaniana permite pensar que não se faria pela via do discurso da técnica, forcluindo o discurso do analista, um protocolo preventivo. A generalização de signos que regulariam uma padronização do desenvolvimento infantil, por meio de uma normatização da relação mãe-bebê, instaura um novo determinismo, que forclui o sujeito, ao mesmo tempo que desconsidera a possibilidade de uma escolha singular, contingente, do sujeito bebê. Quanto à escolha originária do sujeito Jacques-Alain Miller ressalta que “[...] temos que reconhecer a presença da escolha forçada, expressão paradoxal de Lacan, que designa a escolha que fazemos quando não há escolha, mas é uma escolha, e designa o fato de que não há puro determinismo e para que o sujeito se inscreva por uma escolha, essa acontece na relação da causa ao efeito. Mas, nessa relação o sujeito ainda deve consentir. E, se ele recusar esse consentimento? Qual seria o resultado da recusa do sujeito da escolha forçada? Consistiria em colocar o sujeito na condição de retardatário.” Na conversação, Jacques-Alain Miller designou a disparidade e a coexistência do discurso da técnica e do discurso analítico na nossa época, que não cultiva mais o discurso do mestre. O significante mestre não está mais no comando do laço social, e que isso, como pensava Lacan, permite que no horizonte da subjetividade de nossa época venha se perfilar ao discurso do analista, como parte dela. Como seria esse modo de coexistência desses díspares discursos no laço social? Este é o verdadeiro significado de la movida Zadig, que é a psicanálise no campo da política, através do discurso do analista.

O texto de Pimenta considera que a “psicanálise se interessa pelo que é único em cada sujeito, acolhendo-o como se fosse seu primeiro caso, incomparável. Na avaliação do Protocolo IRDI, o sujeito encontra-se elidido, o que viria corroborar com a orientação lacaniana.”2

Já Kupfer destaca em seu texto que “O conjunto de 31 indicadores do IRDI foi construído a partir dos seguintes eixos teóricos e é deles considerado uma expressão fenomênica: suposição do sujeito, estabelecimento da demanda, alternância presença/ausência e função paterna. A delimitação desses eixos baseou-se nos Três ensaios para uma teoria sexual (Freud, 1905), Além do princípio do prazer (Freud, 1920) e A dissolução do complexo de Édipo (Freud, 1924) e nos seminários 4 e 5 de J. Lacan (Lacan, 1995, 1999). ”

Ao se considerar acima os eixos teóricos que fundamentaram o IRDI, buscarei comentar alguns destes que sustentaram a criação deste protocolo preventivo:

Em A suposição do sujeito, o termo “suposição” configura uma relação do sujeito com o Outro que se supõe o saber, o que significa que para se saber, o sujeito tem que ir ao campo do Outro, se submeter ao Outro para adquirir um saber. No texto O Like do saber atual é um “objeto atual”? que contempla a mudança de paradigma na questão da suposição de saber cujo sujeito instaura a transferência analítica, essa mudança é abordada. Nele se diz que o “objeto atual”, designação de Jacques-Alain Miller para os gadgets, como os smartfones, por exemplo, oferece ao sujeito uma multiplicidade de opções que lhe causa uma “hesitação infinita”. Tal incidência do mundo virtual provoca uma mudança radical na aquisição do saber para um sujeito. Diferente do saber que seria acessado passando pelo desejo do Outro e que requereria estabelecer uma estratégia para adquirir o saber, instaurando o amor ao saber. Com os “objetos atuais” o acesso ao saber se dá via autoerotismo. Nesse contexto o corpo é esse Outro a que se encontra submetido ao gozo autista do “objeto atual”, que lhe permite aceder ao saber por uma via direta, que ele encontra na “nuvem”, no mundo virtual. Neste estado de coisas o sujeito não goza, é gozado pela técnica e/ou pelo mercado. Esta constatação de tal atualidade foi, de alguma maneira, antecipada no último ensino de Lacan, ao incluir o imaginário no simbólico. O achatamento provocado por essa inclusão equivale ao semblante que, por sua vez, produz repugnância ao real: reduz o real a dejeto. Miller ressalta que “vivemos uma época que nega o real de forma consentida.”3 Trata-se, por evidente, de um contexto autista de toda uma geração.

Aplicando a assertiva acima, de Miller, seria o IRDI uma tentativa de tapar o real, eludir “a insondável decisão do ser”, uns dos nomes do real em Lacan? E, seria o IRDI uma tentativa de responder de forma equivocada à aquisição do saber, sem que, para isso, o sujeito aceda ao Desejo do Outro? Esse novo modo de saber por meio do discurso da técnica produz autismos, e sujeitos acoplados aos objetos atuais? Vemos que o DSM5 ao ampliar o espectro autista, além de uma inflação diagnóstica, ele vem associar numa mesma categoria clínica o gozo autista, os autismos e o sujeito autista.



(continua)